Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Antropologia’


Uma das mais célebres obras cartográficas produzidas no Brasil, em 1943, considerada um marco dos estudos sobre as línguas e culturas indígenas, está agora disponível no portal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). São mais de 900 referências sobre etnias e línguas indígenas coletadas entre os séculos XVI e XX catalogadas no Mapa Etno-Histórico do Brasil e Regiões Adjacentes, de Curt Nimuendajú. Utilizando a técnica de restauração digital, a versão original do mapa, que mede quatro metros quadrados, foi fotografada quadrante por quadrante, em alta resolução. Com isso, é possível, na versão digital, visualizar as informações em tamanho ainda maior que em sua versão física. Além da versão digital do mapa, está disponível ao público uma edição revisada e ampliada da obra – um mapa e um livro.

A digitalização do mapa é parte do projeto Plataforma Interativa de Dados Geo-históricos, Bibliográficos e Linguístico-Culturais da Diversidade Linguística no Brasil, realizado pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pelo Iphan, por meio da equipe técnica do Inventário Nacional da Diversidade Linguística do Departamento do Patrimônio Imaterial (INDL/DPI/Iphan). Um dos objetivos do projeto é utilizar novas tecnologias da informação e da comunicação para promover o acesso a conteúdos como a restauração digital do mapa original, a versão digital na íntegra dos documentos históricos e etnográficos mencionados por Curt Nimuendajú, além de mapas e informações contemporâneas sobre a diversidade linguística no Brasil.

Os coordenadores editoriais, Marcus Vinicius Carvalho Garcia (Iphan) e Jorge Domingues Lopes (UFPA), contam que lançar a publicação de uma nova edição do Mapa Etno-histórico do Brasil e Regiões Adjacentes e disponibilizar a versão digitalizada do original na internet é tornar acessível à sociedade um dos mais importantes documentos etnográficos produzidos no Brasil. A reedição apresenta uma revisão completa do documento, contendo, inclusive, pequenos ajustes que foram identificados no processo de pesquisa. A publicação, de 120 páginas, está organizado em forma de coletânea, com textos que servem como guias para a leitura do mapa.

O projeto conta com o apoio técnico e institucional do Museu Paraense Emílio Goeldi, Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Curt Nimuendajú e o Mapa Etno-históricoCurt Nimuendajú

Kurt Unckel (1883-1945) nasceu na cidade alemã de Jena e tornou-se etnólogo a partir da experiência de contato e de pesquisa com povos indígenas no Brasil. Foi batizado pelos guaranis como Nimuendajú (“o que fez seu assento”, “o que se estabeleceu”, conforme tradução livre do linguista Aryon Rodrigues). Foi um dos principais pesquisadores da diversidade social e cultural da Amazônia e, além de uma vasta obra intelectual, também produziu três versões do mapa etno-histórico. Estas versões foram feitas sob encomenda, sendo a primeira para o Smithsonian Institute, de Washington (EUA), a segunda para o Museu Emílio Goeldi, de Belém (PA), e a terceira para o Museu Nacional da UFRJ.

Elaborado artesanalmente, o mapa, considerado como uma obra fundamental para o conhecimento das terras baixas da América do Sul, classifica 40 famílias linguísticas e identifica cada uma delas com um tonalidades ou cores específicas. Para o antropólogo George Zarur, o mapa de Nimuendajú é uma obra clássica da antropologia brasileira, síntese de todo um conhecimento antes fragmentado e disperso.

O lançamento do mapa faz parte da programação do aniversário de 80 anos do Iphan e aconteceu no contexto da 87ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, na sede do Iphan, em Brasília, às 17h.Artigo-.-Índios…


Detalhes da versão original do mapa

Detalhes da nova edição do mapa

Serviço:
Lançamento da reedição do Mapa Etno-histórico do Brasil e Regiões Adjacentes, de Curt Nimuendajú e versão digital do mapa original
Data: 27 de setembro de 2017 às 17h
Local: Sala Mário de Andrade – Sede do Iphan/Brasília (DF)

Mais informações para a imprensa
Assessoria de Comunicação Iphan
comunicacao@iphan.gov.br
Fernanda Pereira – fernanda.pereira@iphan.gov.br
Yara Diniz – yara.diniz@iphan.gov.br
(61) 2024-5513 – 2024-5504
(61) 99381-7543
http://www.iphan.gov.br
http://www.facebook.com/IphanGovBr | http://www.twitter.com/IphanGovBr
http://www.youtube.com/IphanGovBr

Lançamento do Mapa Etno-histórico do Brasil e Regiões Adjacentes, de Curt Nimuendajú

Anúncios

Read Full Post »

Antropóloga de Cusco, é a primeira doutoranda que defende sua tese no idioma de seus antepassados

Fernando Iwasaki

Retrato do inca Huayna Cápac GETTY IMAGES

Em março de 2017, a antropóloga Carmen Escalante, da cidade de Cusco, no Peru, professora da Universidade San Antonio Abad de Cusco, defendeu na Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, a tese de doutorado Rugido Alzado en Armas. Los Descendientes de Incas y la Independencia del Perú (Rugido em Pé de Guerra. Os Descendentes de Incas e a Independência do Peru). O acontecimento em si não teria maior transcendência se não fosse pelo fato de que a doutoranda era uma descendente direta do inca Yáwar Huácaq; que fontes de sua pesquisa se basearam em documentos coloniais guardados por sua família desde 1545; e porque defendeu sua tese em quíchua, o antigo idioma runa simi dos incas.

Assim, perante uma banca composta por professores das universidades de Múrcia, Sorbonne e Loyola Andaluzia, Escalante fez seu discurso em quíchua enquanto projetava a tradução em espanhol do texto. Seu gesto teve um enorme valor simbólico por três razões: primeiro, porque deu visibilidade a uma língua ainda falada nos Andes por 10 milhões de pessoas; segundo, porque em sua própria alma mater não teria podido defender sua tese na língua dos incas; e terceiro, porque falar quíchua na antiga metrópole era uma espécie de justiça poética para seus antepassados.

Em 1550, Francisca Pizarro Yupanqui — neta do inca Huayna Cápac e filha natural do conquistador Francisco Pizarro — foi enviada para Trujillo, em Estremadura (Espanha), e forçada a se casar com um tio. A fachada do Palácio da Conquista ainda exibe uma escultura de Doña Francisca, que acabou se tornando personagem de Tirso de Molina. Por outro lado, em 1603, Ana María de Loyola Coya — neta do inca Sairy Túpac e filha do governador Martín García de Loyola — foi enviada para Valladolid e obrigada a se casar com Juan Enríquez de Borja, com quem fundou o Marquesado de Oropesa. Assim, os filhos do casal se uniram aos fundadores dos jesuítas e aos incas de Cusco. Ambas as mulheres foram banidas para que sua descendência nunca se transformasse em agente de conflito, mas também deixaram os Andes falando quíchua, um idioma que desapareceu com elas, e que outra mulher inca nunca mais falou na Espanha até a defesa da tese de doutorado de Escalante.

Segundo o professor Juan Marchena, orientador da antropóloga de Cusco, a defesa da tese não significou apenas a primeira dissertação doutoral em quíchua na Europa, mas também o início de uma série de defesas que permitirá que estudantes do continente americano possam defender seus doutorados em suas respectivas línguas nativas. Marchena está animado, porque em setembro está prevista a defesa de uma tese em aimará.

Enquanto isso, Escalante retomou suas pesquisas diárias em Cusco, onde republicou a Autobiografia de Gregorio Condori Mamani (Ceques. Cusco, 2014), um clássico quíchua escrito com seu marido, Ricardo Valderrama, eminente antropólogo e professor da Universidade San Antonio Abad de Cusco, e ele próprio um descendente do inca Túpac Yupanqui. Os incas já não combatem, mas se tornam doutores, ensinam na universidade e defendem teses em quíchua.

Fernando Iwasaki é escritor, crítico e historiador, nascido em Lima em 1961, no seio de uma família com raízes japonesas. Foi professor de História em seu país natal até que em 1989 começou uma nova vida em Sevilha, dirigiu a revista literária “Renascimento”. Atualmente é professor da Universidade Loyola Andaluzia. Tem, também, uma ampla obra literária.

Fonte:
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/03/cultura/1501793917_804712.html?id_externo_rsoc=SharePoiNt uuuu

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: