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Archive for fevereiro \25\+00:00 2015

Papa Francisco abençoando a Silvana Bragatto_10956268_10200235655731543_4350512364122949507_n Papa Francisco com livro Puntos de Cultura_10426233_877670155627043_3878113638416921971_nPor Célio TurinoPapa Francisco e Célio Turino_digitalizar0007-300x206

Foi inesperado. De repente, uma amiga argentina, Ines Sanguinetti, uma bailarina que dedica sua vida a promover a Cultura Viva Comunitária na periferia de Buenos Ayres, em que “Crear vale la pena”, envia uma mensagem: “estou apresentando-o à Damiana, que trabalhou com o Papa Francisco quando arcebispo e eles gostariam de conhecer mais a ideia dos Pontos de Cultura”. Trocamos algumas mensagens, ela pediu meu currículo sem dizer para que, também enviei meu livro em espanhol, editado na argentina ” Puntos de Cultura – Cultura Viva en movimiento” e ficamos de nos encontrar em abril, quando eu fosse ministrar um curso de gestão cultural em Buenos Ayres. Uma conversa das muitas que realizo com pessoas de diversos países, trocando ideias sobre a Cultura Viva que é realizada pelo mundo afora. Uma semana depois, recebo um convite da Academia de Ciências do Vaticano, para ministrar a Conferência de abertura no tema “Cultura, Educação e Emancipação” no Congresso mundial do programa Scholas Occurrentes (Escolas do Encontro) a ser lançado pelo Papa Francisco, com o objetivo de envolver 60 milhões de jovens em todo o mundo. Mais uma semana e eu estava no Vaticano. Tudo muito rápido e bem definido.

Promover encontros pela paz. Não desses encontros retumbantes, com declarações genéricas e pouca ação prática, mas encontros singulares, pessoa a pessoa. Sessenta milhões de crianças e jovens a se encontrarem pelo mundo, um a um, estabelecendo laços de afeto e confiança. Esta é a ideia das Escolas do Encontro. Algo assim: colocar um jovem Checheno convivendo com um jovem Russo, dormindo no mesmo quarto, dividindo a mesma comida e um tendo que lavar a roupa do outro, como na vila de Rondini, na Itália, em que jovens de países conflagrados são convidados a viver juntos, sob o mesmo teto. E, de repente, um jovem israelense declara que nunca havia conversado com um palestino antes de dividir o quarto com um, e eles se descobrem amigos. Potenciar o encontro, praticar a alteridade (o se reconhecer no “outro” por mais diferente que este “outro” possa parecer), exercitar a tolerância e a paz, esta é a ideia do Scholas Occurrentes.

O Ponto de Cultura pode fazer esta mediação. Aqui não me refiro aos Pontos de Cultura instituídos ou reconhecidos por governos, esses também, mas há muito mais Pontos de Cultura espalhados por aí. Gente boa, criativa e dedicada, fazendo trabalho pelo mundo, entregando suas vidas a organizar a Cultura Viva em suas comunidades. Pode ser uma biblioteca comunitária, ou uma escola de dança, ou grupo de teatro, de hip hop, coletivo audiovisual, com indígenas, jovens de favelas, camponeses, também estudantes universitários, mestres da Cultura Popular, Griôs, contadores de histórias, palhaços, músicos, gente fazendo ecovilas, agroecologia, cooperativas de economia solidária, trabalhos compartilhados em software livre, cultura digital. Tudo cabe na Cultura Viva, basta querer, inventar e fazer. E promover o encontro.

Há realidades extremadas, como jovens vivendo em áreas de guerra. Mas há também outras realidades em que o Encontro deve ser promovido, em que a guerra não é declarada, mas velada (ou não tão velada assim). Não seria uma boa ideia colocar jovens de um colégio arquidiocesano, de classe média alta, para interagir com jovens de uma escola pública no Capão Redondo, em São Paulo? Mesmo morando na mesma cidade, talvez eles nunca tenham se encontrado, como entre os jovens israelense e palestino. Por vezes são escolas que estão ao lado uma da outra, no mesmo bairro ou região, por vezes estes jovens até se cruzam nas ruas, mas nunca se olharam, nunca se ouviram. O jovem da família rica, com acesso a todos os bens de consumo ou conforto, talvez seja até mais excluído de sua cultura, de seu povo, que um jovem que possa morar na favela vizinha. Um, com acesso a shoppings, baladas, cinema multiplex ou roupas de marca, outro, com acesso ao Jongo, à capoeira, às rodas de conversa, saraus de periferia ou grupos de rap. Mas eles tem o que conversar e aprender um com o outro. É aí que entra a cultura e o esporte. Não para promover um encontro forçado, como se fosse uma tarefa escolar, em que cada uma dessas crianças e jovens devesse conversar com a outra em algum momento especial ou em encontros pelo computador. Mas em encontros reais, vivenciados cotidianamente. Um grupo de capoeira, o exercício de produção de um audiovisual entre jovens de realidades tão distintas, um trabalho comunitário (não para que o mais rico se sinta ajudando o mais pobre, mas para uma ação comum, em que um ajuda e aprende com o outro, cuidando de uma horta comunitária, de comida orgânica, por exemplo). Enfim, há tantas possibilidades, tantas necessidades, tanta gente precisando se encontrar (mesmo quando não sabem). Cabe aos Pontos de Cultura do mundo a mediação deste encontro.

Foi o que conversei com o Papa Francisco. E que venham os encontros!

“Fico mais uma vez muito emocionada por fazer arte desta grande família,que foi idealizada com tanto amor,dedicação e competência por Célio Turino, um grande visionário de que a cultura pode muito!Foi graças a ele que lá naquele nosso primeiro Encontro dos Pontos de Cultura,em 2006,em São Paulo,eu estive presente,graças ao seu convite,representando nosso projeto cultural da Associação de Mulheres Vitória-Régia,que eu nem sabia que era um Ponto de Cultura!Suas ações como titular da Secretaria da Cidadania Cultura do Ministério da Cultura,nos ajudaram muito no nosso empoderamento e fortalecimento de nossas companheiras mulheres,suas crianças e jovens!Cada degrau da caminhada do Célio, foi construído assim,com essa singeleza e simplicidade com chega agora ao Vaticano, levado pelo convite do nosso amado Papa Francisco​!Parabéns,Célio Turino,serás sempre o nosso grande Embaixador do Programa Cultura Viva no mundo todo pelo bem viver dos povos!”São as palavras emocionadas da Tuxáua Marly Cuesta.

http://www.revistaforum.com.br/brasilvivo/2015/02/23/encontro-com-papa-francisco/

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“A irresponsabilidade do ser humano com nossa grande casa planetária, já ultrapassou todos os limites suportáveis!Agora a conta está sendo apresentada à tod@s.E, infelizmente gestores e sociedade ainda de olhos fechados para a busca de grande tomada de decisão pela mitigação dos danos ambientais em todo o planeta.Nova consciência planetária pelo bem comum,já”,disse a Educadora Ambiental Marly Cuesta.

Matt on Not-WordPress, mostly photos

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Marshall Rosenberg

Marshall Rosenberg

Em gratidão e homenagem ao legado do mestre Marshall Rosenberg, que fez sua passagem no último dia 7 de fevereiro, traduzi e compartilho aqui um trecho do livro “Practical Spirituality”, que apresenta uma sessão de perguntas e respostas na qual Marshall fala sobre as bases espirituais da Comunicação Não-Violenta. Este livro me trouxe grandes insights sobre os reais significados de se praticar a CNV e da importância de fazermos isto a partir de um lugar de amorosidade profunda e humanidade compartilhada que caracteriza a verdadeira espiritualidade. Para mim, muitas falas dele ressoam com o pensamento de Martin Buber sobre como só é possível nos encontramos com o Divino, o inefável Tu-Eterno, quando nos abrimos com coragem e entrega para os encontros verdadeiros com os outros seres humanos, numa legítima relação Eu-Tu. A propósito disto, Buber escreveu: “A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o Tu. Pois, no contato com cada Tu, toca-nos um sopro da vida eterna”. Sou imensamente grata a Marshall Rosenberg porque, através dos estudos e da prática de Comunicação Não-Violenta que tenho feito a partir de seu trabalho, pude, por inúmeras vezes, entrar em contato pleno com a humanidade presente em mim e em todas as pessoas e sentido, assim, o sopro suave e precioso da vida que nunca acaba. 

P: Como você se conecta com o Divino através da Comunicação Não-Violenta?

R: Eu acredito que é importante que as pessoas vejam que a espiritualidade está na base da Comunicação Não-Violenta e que elas aprendam a mecânica do processo da CNV com isto em mente. É de fato uma prática espiritual que eu estou tentando propor como um modo de vida. Mesmo que nós não mencionemos isto, as pessoas são seduzidas pela prática. Ainda que elas pratiquem a CNV como uma técnica mecânica, elas começam a experimentar coisas entre elas mesmas e outras pessoas que elas não eram capazes de experimentar antes. Então, elas acabam por atingir a espiritualidade do processo. Elas começam a ver que ele é mais que um processo de comunicação, e percebem que, na realidade, é uma tentativa de manifestar nossa espiritualidade. Eu tentei integrar a espiritualidade ao processo da CNV de uma forma que vai de encontro à minha necessidade de não destruir a beleza dele através do pensamento filosófico abstrato.  O tipo de mundo em que eu quero viver requer algumas mudanças sociais bastante significantes, mas as mudanças que eu quero ver acontecerem provavelmente não acontecerão a menos que as pessoas que trabalham para alcança-las manifestarem uma espiritualidade diferente daquela que criou as dificuldades  em que vivemos hoje. Então, nosso treinamento é desenhado para ajudar as pessoas a se certificarem de que a espiritualidade que as guia é de sua própria escolha, e não uma que tenha sido internalizada através da cultura. E que elas continuem criando mudanças sociais a partir desta espiritualidade.

P: O que “Deus” significa para você?

R: Eu preciso pensar em Deus de uma forma que funcione para mim – outras palavras ou modos de olhar para esta beleza, esta força poderosa – e então meu nome para Deus é “Amada Energia Divina”. Por um tempo foi apenas Energia Divina, mas então eu li algo sobre as religiões e poetas orientais e eu adorei a forma pela qual eles têm esta conexão pessoal e amorosa com esta Energia. E descobri que acrescentava à minha vida chamá-la de Amada Energia Divina. Energia é Vida, conexão com a vida.

P: Qual é seu jeito preferido de conhecer a Amada Energia Divina?

R: É como me conecto com os seres humanos. Eu conheço a Amada Energia Divina me conectando com seres humanos de uma forma determinada. Eu não apenas vejo a Energia Divina, eu A saboreio, A sinto e A sou. Me conecto com a Amada Energia Divina quando eu me conecto com outros seres humanos desta forma. Então Deus se torna muito vivo para mim.

P: Quais crenças, ensinamentos ou escritos religiosos tiveram a maior influência sobre você?

R: É difícil para mim dizer quais das várias religiões do planeta tiveram o maior impacto sobre mim. Provavelmente o Budismo foi uma delas. Eu gosto muito do que entendo sobre o que Buda ou as pessoas que o citam dizem. Por exemplo, o Buda deixa muito claro: não se vicie nas suas estratégias, suas exigências ou seus desejos.  Esta é uma parte muito importante de nosso treinamento: não misturar necessidades humanas reais com o modo em que fomos educados para satisfazer a estas necessidades.  Então, tome cuidado para não misturar suas estratégias com suas necessidades. Nós não precisamos de um carro novo, por exemplo. Algumas pessoas podem escolher um carro novo como uma estratégia para satisfazer uma necessidade de segurança  ou paz de espírito, mas precisamos tomar cuidado, porque a sociedade pode enganá-lo, fazendo-nos pensar que é do carro novo que realmente precisamos.  Esta parte de nosso treinamento está bastante em harmonia com os ensinamentos do Buda. Quase todas as religiões e mitologias que eu estudei trazem uma mensagem bastante similar, uma que Joseph Campbell, o mitólogo, resume em alguns de seus trabalhos: nunca faça nada que não seja um jogo. E o que ele quer dizer por jogo é aquilo que contribui com empenho para a vida. Então, não faça nada para evitar punição, não faça nada por recompensas, não faça nada por culpa, vergonha, ou pelos viciosos conceitos de dever e obrigação. O que você fizer será um jogo quando você conseguir ver o que enriquece a vida. Eu tiro esta mensagem não só de minha compreensão sobre os ensinamentos do Buda, mas também do que aprendi sobre o Islã, o Cristianismo e o Judaísmo. Eu acredito que seja uma linguagem natural. Faça aquilo que contribui com a vida.

“Que ensinamento maravilhoso!Que Deus o tenha na luz para o seu eterno repouso! Seus ensinamentos continuarão a nos dar a direção no cumprimento de nossa missão para um bem possível para tod@s!Grata,”disse a tuxáua Marly Cuesta.

https://transformativa.wordpress.com/2015/02/11/espiritualidade-pratica-reflexoes-sobre-as-bases-espirituais-da-comunicacao-nao-violenta-marshall-rosenberg/comment-page-1/#comment-1

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editora-musicalEstá reaberto para consulta pública, até 3 de abril, o Plano Nacional de Música. A ideia é que as pessoas comentem sugiram ações que contribuam para realizações das metas, elaboradas à luz do Plano Nacional de Cultura.

Entre as 34 metas propostas estão: 100% dos Sistemas Estaduais e Municipais de Cultura com representação no setor da música; 100% dos estados com registro das músicas das culturas populares e tradicionais; 25% dos editais destinados a música fomentado pelo governo que sejam para música oriunda de povos e comunidades tradicionais e de culturas populares; aumento em 150% no emprego formal do setor musical; 100% dos filmes brasileiros de longa-metragem com trilha sonora de música brasileira; e 20% da produção da música independente brasileira na programação dos canais de televisão quer seja fechado e ou aberto.

Toda a cadeia da música está convidada a participar. Para isso, basta clicar nos ícones das metas e das ações no site culturadigital.br/planosetorialdemusica e deixar as suas contribuições.

Após comentários, os participantes receberão retorno sobre a revisão do plano e as contribuições que foram incorporadas.

http://www.culturaemercado.com.br/noticias/consulta-sobre-plano-nacional-de-musica-e-reaberta/

http://culturadigital.br/planosetorialdemusica/

 

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 Dermeval Saviani

Dermeval Saviani

Por Cezar Xavier

O capitalismo instaurou uma era de opacidade nas relações sociais, que torna inevitáveis os embates de lutas de classe. Este foi o rumo do raciocínio construído pelo conferencista Dermeval Saviani, ao encerrar o Seminário de Estudos Avançados do PCdoB, no dia 1º de fevereiro, em São Paulo. Conduzida para refletir sobre as eleições de 2014 e a consciência social brasileira, a conferência do pedagogo recorreu à filosofia e ao marxismo para o desvendamento ideológico dos sistemas econômicos, demonstrando a importância da educação crítica para formação da consciência social e a ação política.

Saviani explicou que refletiu muito antes de decidir pela abordagem escolhida para não “chover no molhado” ao discutir consciência social e ação política e ideológica. Ele abriu a conferência afirmando que é o ser social que determina a consciência, portanto, é necessário compreender a estrutura da sociedade para dimensionar as condições da consciência que o indivíduo tem de seu lugar no mundo.

O trabalhador não reconhece o produto do seu trabalho

Deste modo, numa afirmação própria do marxismo, Saviani afirma que a estrutura jurídica e política de uma sociedade é determinada pelas suas condições econômicas. A partir deste pressuposto, ele volta à desconstrução da estrutura do modo feudal de produção para compreender a condição capitalista da humanidade, surgida em contradição ao sistema que o antecedeu.

Do modo de produção feudal, formado por servos/artesãos e senhores, se elevou a estrutura jurídica e política (nobreza e clero) daquele regime econômico. O aumento da capacidade de produção de servos e artesãos gerou um excedente, para além das necessidades de subsistência, que passou a ser trocado nas cidades (burgos). Com o contraste do papel da burguesia sobre as relações estáticas do feudalismo, as relações entre servos/senhores e artesãos/mestres tornaram-se entraves para o avanço econômico, já que as mudanças do campo para a cidade, da troca para o comércio, da agricultura para a indústria, se tornavam cada vez mais prementes.

É deste modo que as convulsões burguesas “libertam” os servos e artesãos dos instrumentos de trabalho que pertenciam aos senhores feudais, e passam a vender sua força de trabalho aos burgueses. Foi uma transformação lenta que atravessou os séculos XV e XVII, com o surgimento do iluminismo e o livre exame do protestantismo. “Em 1848, o Manifesto Comunista celebra os avanços de cinco séculos de capitalismo”, salienta Saviani.

Embora tenha libertado a mão de obra da servidão ao senhor feudal, Saviani ressalta que a burguesia manteve privados os meios de produção, impedindo uma liberdade plena que o comunismo prometia com o fim da propriedade sobre os meios de produção. “Foi o início de uma nova era de revolução social, com a finalidade de libertar as forças produtivas dos meios privados concentrados nas mãos dos capitalistas”, diz o filósofo.

No capitalismo, embora o excedente seja sua razão de ser, ele é sempre um entrave econômico. Para resolver o impasse do excesso produtivo, o regime estimula a destruição da produção, seja por meio de catástrofes ambientais ou guerras. Saviani ironiza ao questionar se as manifestações políticas acompanhadas de vandalismo, que a tática black bloc justifica como anticapitalistas, na verdade não concorreriam para o avanço capitalista. “Todas as grandes guerras geraram surtos de grande desenvolvimento capitalista”, descreve ele.

A própria noção da “obsolescência programada” surge desta necessidade do capitalismo; ou seja, o produto industrial já é programado para se tornar obsoleto e ser substituído por um mais moderno, num prazo curto de tempo. “Você vai à assistência técnica, e o especialista diz que é mais barato comprar uma impressora nova do que consertar a velha”, diz ele, o mesmo servindo para inúmeros outros produtos eletrônicos de uso cotidiano.

Saviani cita o exemplo das lâmpadas, que nasceram com tecnologia para serem eternas. Isto pode ser perfeitamente comprovado com uma lâmpada dos bombeiros de Livermore, na Califórnia (EUA), que já funciona desde 1901. Segundo seu relato, em 1924, foi formado o cartel de lâmpadas para controlar a vida útil deste produto e, então, Thomas Edison cria a lâmpada com tempo determinado, fixado em mil horas de duração.

Este descarte contínuo da produção gera graves problemas ambientais e mantém as forças produtivas ocupadas com um excedente que só interessa ao capitalista. “Numa economia socializada, as forças produtivas estariam liberadas para satisfação de novas necessidades”, sugere Saviani. É o caso das pesquisas de cura de doenças, cujo resultado é sempre um remédio paliativo para prolongar a vida do paciente convivendo com a doença, em vez de curá-la.

A partir desta percepção utópica da economia, Saviani explica porque o capitalismo é a pré-história da humanidade. Neste regime em que o trabalhador está dissociado do produto de seu trabalho, ele faz a história sem saber que a faz. Num regime em que vigore o trabalho livre dos meios de produção privados, o proletariado faz a história sabendo que a faz. Neste raciocínio encontramos a chave, proposta pelo filósofo, para a reflexão sobre a consciência social.

A questão da relação do capitalismo com a natureza também foi tratada, revelando o modo como ela é vista neste sistema como um produto a serviço do homem. A subsistência nunca foi vista como um problema para natureza. Em 1876, Engels, parceiro de Marx nos textos revolucionários, já dizia que os animais transformam a natureza por viver nela, enquanto o homem a domina e a faz servi-lo, o que a leva a reagir conforme o abuso humano. “Os europeus não viam que eliminar florestas para agricultura criava os desertos atuais que avançam sobre os países que colonizaram”, cita Saviani.

Transparência e Opacidade

Todas essas contradições capitalistas propiciam o desenvolvimento da luta de classes. Segundo Saviani, a burguesia vê uma crise econômica, como a que vivemos atualmente, como um desarranjo e disfunção, que demanda reformas. “A classe dominada de trabalhadores  vê a crise como uma oportunidade para mudança na correlação de forças”, prescreve ele.

Parafraseando Lucien Goldman, o filósofo descreve os níveis de consciência como real (aquela do burguês), a possível (aquela do trabalhador alienado) e a máxima possível, que só pode ser adquirida pelo proletariado, que projeta um horizonte para a superação da ordem burguesa. “Os interesses da burguesia a impelem a manter a ordem capitalista, enquanto os interesses do proletariado os compelem à superação do sistema”, afirmou.

Engels já observava que a história desmentiu os revolucionários, ao revelar que o desenvolvimento capitalista estava muito aquém da necessidade para a supressão da produção capitalista.  “O alemão observou que o amadurecimento das condições objetivas para a revolução na Europa (um canto do mundo), se confrontava com a ascensão recente da burguesia no resto do planeta”, diz Saviani, ao sugerir que as condições para a revolução ainda estão por ser criadas.

Voltando as bases do Capital, Saviani recupera a lógica de que o proletário não é livre, pois é proprietário exclusivo de sua força de trabalho, enquanto o burguês é livre por ter a propriedade exclusiva dos meios de produção e da força de trabalho dos proletários. Por contrato, o capitalista é dono de tudo que o trabalhador é capaz de produzir em troca de um salário para consumir aquilo que ele mesmo produziu.

Do mesmo modo, Saviani recupera a lógica que define a perda da relação entre o trabalhador e seu produto. No capitalismo, é a troca que determina o consumo, ao contrário do feudalismo, em que a troca do excedente vinha depois do consumo para subsistência. No capitalismo, a troca precede o consumo. “Eu não recebo meu produto produzido; eu recebo um salário equivalente ao valor da minha força de trabalho e tenho que comprar o que produzi”, diz o filósofo, lembrando como nos primórdios do capitalismo, com trocas mais primárias, o homem já começa a se alienar da lógica que governa as relações econômicas.

É assim que a produção adquire um caráter fetichista: as mercadorias passam a ter vida própria e tornam-se misteriosas. Perdemos a percepção de que elas são produto das mãos humanas. O capitalismo inaugura a “opacidade” nas relações sociais. “No feudalismo, as relações são transparentes: o escravo é propriedade do senhor e o servo está submetido ao senhor. No capitalismo, a aparência de liberdade instala a escravização do trabalhador”, explica.

Surge a diferença entre aparência e essência, em que o capitalista é livre em aparência e essência, enquanto o proletário é livre apenas na aparência. O proletário que não trabalha, morre, ou vive na criminalidade. “É esta opacidade que deu origem aos embates da luta de classes”, afirma Saviani.

Educação, avanços e retrocessos liberais

O liberalismo burguês favoreceu a correlação de forças do proletariado. A conquista do sufrágio universal, leva os proletários a usar a luta parlamentar como ferramenta de conquistas, por terem construído uma forte representação nas eleições. Mas a burguesia também se adapta aos embates, transformando o liberalismo. Em 1848, a indústria bélica e a estrutura urbana se alteram para inviabilizar a luta de barricadas, comum na Paris de vielas propícias à emboscadas populares. As grandes avenidas surgidas das reformas burguesas de Paris, tornaram-se perfeitas para tanques e canhões de longo alcance que eliminaram a hipótese das barricadas proletárias.

Marx acreditava que as crises sucessivas acabariam criando as condições objetivas para superação do capitalismo. Keynes, então, inventa os mecanismos liberais para, se não evitar crises, encontrar condições para superá-las, por meio de intervenção de estado. Foi o que tornou a Europa um exemplo de estado de bem estar social, para enfrentar o comunismo que avançava a partir da União Soviética.

Hayek foi o economista radicalmente contra a intervenção do estado na economia. Agraciado em 1974 com o Nobel, seu modelo foi implementado no momento em que a crise será gerenciada sem intervenção do estado. Saviani retoma os elementos da crise que deixou impactos profundos na atualidade, em particular na gestão da atual crise financeira internacional, em que a intervenção do estado garante a salvação dos bancos para evitar o colapso financeiro.

Como educador célebre que é, fundador da Pedagogia Histórico-Crítica, Saviani não poderia deixar de prescrever a educação escolar, como fazia Gramsci, como o meio mais adequado para a apropriação dos trabalhadores das conquistas do conhecimento e o desenvolvimento da consciência crítica.

A mais-valia é resultado da produção do proletariado e configura um trabalho não pago. Por isso, as ações de massa devem ser orientadas o máximo possível para a consciência de pertencimento à classe. “Nas eleições, mesmo os partidos progressistas dizem que os empresários são o setor produtivo, geram empregos e renda”, ironiza ele, revelando o modo como a ideologia se naturaliza entre os trabalhadores.

“O capitalismo, apesar de todas as suas misérias, engendra as condições para a transformação do sistema”, diz Saviani. Analisando com perspicácia o funcionamento do sistema, como fez Marx, a luta proletária deveria buscar a abolição do sistema de trabalho assalariado, e não lutar por “salário justo, por jornada justa”. “Os movimentos sociais são conservadores, pois buscam assegurar espaço (direitos) nessa sociedade capitalista, e não a ruptura com ela”.

Voltando a sua área de atuação, Saviani mostra que o Movimento Todos Pela Educação, por exemplo, que até setores de esquerda embarcam em sua propaganda, é um movimento social dos empresários. São fundações, empresas e bancos que interferem claramente nas políticas educacionais.

Por outro lado, ele avalia que o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), “constitui um germe da sociedade socialista, animando para novas conquistas”, ao arregimentar grande número de famílias para ocupações. Segundo ele, o MST era um movimento conservador de perdedores de sua terra que voltavam para recuperá-la. “Hoje é o movimento social que mais avançou e mantém a perspectiva socialista”, opina o filósofo, ao citar a criação da escola de formação Florestan Fernandes, como um exemplo da consolidação dessa perspectiva socialista.

Após os comentários da plateia, Saviani deu continuidade à conferência avançando no tema. Ele aproveita a questão sobre o pós-modernismo, para defini-lo como um “grande aparato ideológico”, na defesa de interesses que levam à distorção sobre a noção de verdade/realidade.

Resgatando o realismo ingênuo do filósofo Santo Agostinho, em que o critério de verdade era a evidência objetiva que se impõe ao sujeito, ele avança para o idealismo kantiano, em que o racionalismo define verdade como conhecimento a partir das ideias inatas. Em seguida vem o empirismo de Hume, em que o conhecimento é a experiência vivida, e finalmente a autocrítica de Kant ao descobrir a impossibilidade da metafísica com sua crítica da razão pura. Não  há instância de decisibilidade na razão pura: Deus existe? O homem é livre? A alma é imortal? Eram estas as grandes questões da filosofia. É quando se define que as únicas ciências são a Matemática, que cria conceitos e a Física, que os descreve.

A filosofia moderna elabora então a síntese em que o real e o ideal são dois elementos que se articulam. Hegel estabelece a contradição como categoria lógica, que era expulsa até então. Marx, então, inaugura a filosofia contemporânea com o realismo crítico. “Porque a realidade existe independente do pensamento, o que é uma crítica da realidade como fruto do pensamento”, demonstra Saviani.

Na pós-modernidade, estaríamos vivendo numa sociedade que levanta problemas que não é capaz de resolver. “Vem a concepção de irracionalismo, que já havia sido levantada no século XIX”, diz Saviani. O filósofo então, passa a demonstrar que em períodos progressistas, tende a predominar a indução, enquanto em períodos de fecho de uma forma social tende a prevalecer o dedutivismo. A indução não traz a verdade, mas gera conhecimento, enquanto a dedução garante a verdade, mas não faz avançar o conhecimento, porque, segundo Kant, são juízos analíticos e não sintéticos.

Ele cita uma dedução lógica básica, de que todo homem é racional, portanto, Pedro sendo homem, é racional. A dedução é justificadora da premissa, não acrescenta nada à premissa. Saviani mostra como a burguesia, sendo o novo na sociedade, derrotou o velho e o novíssimo (descrito aqui como sendo a Comuna de Paris). Isso, porque a burguesia permite avanços, mas provoca retrocessos: como quando tira a educação das mãos de jesuítas para evitar um conservadorismo de cunho religioso na formação da sociedade, mas depois devolve, para conter o avanço das lutas proletárias, numa aliança entre igreja e burguesia.

Com isso, entre 1780 e 1840, ocorre a consolidação da burguesia industrial. A partir daí, ela não tem mais argumentos para justificar seus avanços e passa a se apoiar em argumentos irracionais. “Descobrir o novo é superar a ordem, então o objetivo da educação passa a ser justificar a ordem”.

Saviani afirma que a educação é própria do homem, e nasce com seu surgimento. Ele também diz que o homem é um ser histórico, portanto não incorpora avanços na genética. “As crianças selvagens comprovam isso, ao se tornarem completamente animalescas ao perderem o contato com a educação humana”.

Especialista na história da educação, Saviani aproveita a noção de que a educação coincidia com o processo de trabalho, até um certo ponto, prescindindo da alfabetização, por exemplo. A educação só se generaliza, efetivamente, como necessidade no capitalismo, já que a escrita incorporada precisa da alfabetização.

“O capitalismo generaliza a educação, mas tem uma relação complicada com a escola. O saber também é um meio produtivo, portanto o trabalhador deixa de ser proprietário apenas da sua força de trabalho, para ser dono de um meio produtivo.”

É por esse motivo, por exemplo, que Adam Smith defende a educação em “doses homeopáticas”, ao admitir apenas o conhecimento necessário para a produção capitalista. Educar é mais que instruir. Instruir é apenas apreender conceitos. “Só instruir é mutilar o educando”, cita Saviani. Mas isto precisa ser compreendido dialeticamente, pois educar precisa envolver instrução. “A educação de qualidade é uma luta contra toda essa facilitação que predomina, inclusive na Europa, após o Protocolo de Bolonha, que visa reduzir a educação ao padrão americano. Vivemos  esse momento de descenso”, lamentou.

Saviani encerra sua conferência exemplificando essa dialética entre instrução e educação, com o simples aprendizado do latim, que se revelava uma forma de se apropriar de um conhecimento sobre “como nasce, floresce e fenece uma civilização”.

https://aestradavaialemdoquesevee.wordpress.com/2015/02/13/estudos-avancados-saviani-analisa-a-educacao-como-formadora-da-consciencia-social/

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10996581_788604234509302_8948300610341527649_nNão Basta Saciar a Fome!


Esta é a campanha do Pão Para o Mundo para este ano.

“No GT-Boas Práticas pelos ODM no RS,fizemos a nossa parte pela redução da fome e miséria”,disse a Tuxáua Marly Cuesta, que é Oficineira de alimentação tradicional.

Confira no site:
http://www.brot-fuer-die-welt.de/pt/pao-para-o-mundo/quem-somos/atual-campanha.html?type=EindruckplakatC

 

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IMG-20140511-WA0004SÃO PAULO, São Paulo – O Centro Universitário Maria Antonia da USP promove, de 9 a 12 de fevereiro, o curso Cinema e gastronomia: ficção e ativismo, ministrado por Janka Babenco.

Os encontros acontecem das 16 às 18 horas e discutem a gastronomia através do cinema, mostrando o alimento como parte do cenário, símbolo social, palco de conflito e tema das narrativas. O universo gastronômico pode ser encontrado tanto em filmes de ficção, quanto em documentários, relacionando os homens com os alimentos, a história e os hábitos alimentares, a produção e o consumo e também com respectivos os impactos sociais. Sob a perspectiva de que existem filmes com sabor, filmes de autopromoção e filmes engajados, o papel dos chefs também será tratado, dialogando com referências cinematográficas.

As apresentações terão como tema, no dia 9 de fevereiro, “A comida italiana do Neorrealismo aos filmes de Hollywood”, no dia 10, “A culinária francesa e os filmes de comida no mundo”, no dia 11, “O chef: arte e ego” e, no dia 12, “Manifesto e denúncia: a comida como ativismo”.

Janka Babenco atua desde 1996 na área de gastronomia, comunicação e projetos culturais, com especializações nas áreas de Patrimônio Cultural (UFPE) e Gastronomia e Turismo (Universidade de Estudos de Ciências Gastronômicas – Itália) e desenvolve o projeto da Mostra DOC Gastronômica.

Os interessados devem realizar inscrições no 2º andar do Centro Universitário Maria Antonia, na sala de cursos, de segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas. O valor a ser pago é de R$ 200,00. Estudantes e professores têm desconto de 20% e idosos, de 40%.

Evento Pago Valor: R$ 200,00
Inscrição Inscrição Prévia Obrigatória 17/12/2014 – 06/02/2015
Local: Sala de cursos no Centro Universitário Maria Antonia.
Site http://www.usp.br/mariantonia
E-mail: cursosma@usp.br

Fonte: USP

http://www.revistamuseu.com.br/noticias/not.asp?id=43544&MES=%2F2%2F2015&max_por=10&max_ing=5#not

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defesa todos(1)ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU GUARANI
José Ribamar Bessa Freire
08/02/2015 – Diário do Amazonas

(De Biguaçu, SC) Três pesquisadores indígenas defenderam nesta quarta feira (4/2) seus trabalhos de conclusão de curso (TCC). Ronaldo A. Barbosa batizado em guarani como Karai Djudescreveu, com os pés na terra, a agricultura tradicional e, para ilustrar suas hipóteses, trouxe da roça vários tipos de milho, melancia, amendoim, aipim, abóbora e batata doce. Já seus colegas Geraldo Moreira (Karai Okenda) e Wanderley Moreira(Karai Ivyju Miri), com os olhos no céu, enveredaram pela astronomia e trouxeram um mapa do universo que demarca o céu guarani com suas estrelas e constelações.

Alunos do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, eles fazem parte da turma de 120 índios Xokleng Laklãnõ, Guarani e Kaingang, com ingresso em fevereiro de 2011 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Quatro anos depois, as defesas mencionadas – as primeiras da UFSC em terra indígena – aconteceram não no campus, mas numa aldeia com o nome poético de Reflexo das Águas Cristalinas (Yynn Moroti Wherá em guarani), localizada no município de Biguaçu, para onde os membros da banca se deslocaram.
As duas monografias se complementam como se fossem capítulos de um livro, pois os Guarani para verem a terra, olham o céu. Com a leitura do céu, elaboram o calendário cosmológico chamado Apyka Miri, que conta o tempo, marca o clima, a chegada da chuva, a época de extrair o mel e de semear, o tempo da colheita e de fazer artesanato, a duração das marés, a caça e a pesca, tudo em sintonia com Nhanderu Tenonde – o Pai Criador e com Nhamandu – o Pai Sol. A astronomia e a religião é que dão suporte para a agricultura guarani, que tem o pé na terra e o olho no céu.
O pé na terra
Um ritual com apresentação do coral e dança de crianças indígenas precedeu a defesa da monografia sobre agricultura, de 56 páginas, ilustrada com fotos e vídeo feitos por Ronaldo. Paramentado com um cocar de penas coloridas, ele começou sua exposição formulando várias questões: quais as formas tradicionais usadas pelos Guarani para  cultivar as plantas e quais delas se mantém na atualidade? Que tipo de ferramentas são usadas? Quais as sementes mais cultivadas? Qual a época de cultivo? O que fazer diante das novas tecnologias e do mercado?
Para buscar as respostas, ele combinou vários procedimentos de pesquisa.  Entrevistou velhos sábios e reproduziu as entrevistas em língua guarani. Cruzou essas narrativas orais com pesquisa bibliográfica. Leu documentos do Ministério de Desenvolvimento Agrário, textos de Egon Schaden, de Maria Inês Ladeira, algumas teses e dissertações. Além disso, saiu a campo e registrou suas observações pessoais feitas em roças de três aldeias, de onde trouxe diversos tipos de milho. Desenhou o croqui das áreas cultiváveis e ali identificou variedades de plantas.
Desta forma, as imagens registradas com diferentes técnicas incluíram desde desenhos coloridos feitos manualmente pelo autor, passando por fotos das roças e das pessoas entrevistadas até o mapeamento das aldeias com imagens de satélite do Google Earth. No final, a projeção do vídeo sobre o tema reforçou a relação da agricultura com o mundo espiritual guarani, destacando o ritual do Nhemongaraí, quando se dá o benzimento de sementes e de alimentos junto com o batismo das crianças.
Nos dias atuais a agricultura tradicional guarani é como se fosse uma agricultura orgânica ou biológica dos não indígenas porque não usa nenhum tipo de adubo químico – escreveu Ronaldo, que chama a atenção para “as armadilhas” do mercado. “De alguma maneira hoje devemos controlar o que vem de fora para não afetar diretamente a nossa produção, a nossa cultura” – ele diz, apontando como lugares de luta a escola indígena e “a Casa de Reza (Opy),que é a nossa primeira escola”.
O olho no céu
A letra de Nhanderu está escrita no céu e na natureza, mas é preciso aprender a ler essa letra – explicou Alcindo Moreira (Wherá Tupã), 106 anos, presente na defesa ao lado da esposa Rosa Mariani Cavalheiro, 98 anos, ambos entrevistados por Geraldo e Wanderley, seus filhos, a quem ensinaram a ler o céu. O TCC feito pelos dois trata justamente do calendário guarani, da passagem do tempo e das estações,  que podem ser registradas através da observação das estrelas e das constelações.
A pesquisa explorou um campo relativamente novo para a academia – a arqueoastronomia – disciplina que estuda os conhecimentos astronômicos dos povos originários da América e que a partir de 1970 começou a ser estudada em universidades europeias e americanas. No Brasil, a  Ilha de Santa Catarina é justamente a região mais rica em vestígios arqueológicos sobre o tema – segundo o físico Germano Bruno Afonso, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), cujos trabalhos são citados no TCC, de 48 páginas, com fotos, desenhos e um vídeo feito pelos autores.
Os dois irmãos trilharam caminho similar ao de seu colega, usando metodologia da “pedagogia da alternância”, que foi bem trabalhada nas 3.420 horas de duração do Curso de Licenciatura, distribuídas em “tempo universidade” e “tempo comunidade”, com a integração dos dois espaços na produção do conhecimento. Entrevistaram os velhos sábios guarani e cruzaram os dados obtidos com os textos míticos recolhidos por Leon Cadogan, com os escritos de Bartomé Meliá – que foi professor no curso – e com a observação do céu.
Todos os povos antigos faziam a leitura do céu. Se não fizessem, não sobreviveriam. Trabalho muito com índios, com astronomia indígena, principalmente com os conhecimentos dos pajés – diz Germano Bruno Afonso, doutor em Astronomia e Mecânica Celeste pela Universidade de Paris VI, com pós-doutorado no Observatório da Côte d’Azur e Prêmio Jabuti de 2000 com o livro “O Céu dos índios Tembé“. Ele reconhece que muitas de suas afirmações “se baseiam no modo como os pajés me explicaram a fazer a leitura do céu e na sua forma de pensar”.
Como os índios pensam
Foi essa leitura que Geraldo e Wanderlei fizeram trabalhando nos últimos sete anos para reconstituir uma versão do calendário guarani. Orientados por Wherá Tupã, registraram o conhecimento oral antigo, observaram as principais constelações, descreveram seus significados para as atividades cotidianas e construíram uma réplica do relógio guarani, desenvolvendo uma metodologia para ensinar as crianças da aldeia, que desta forma aprendem mais facilmente. Germano Bruno confirma:
– Para o ensino da Astronomia às crianças, o céu guarani é um auxiliar precioso. Quando elas aprendem as constelações indígenas – da Anta, do Veado, da Ema, da Cobra, da Canoa, do Homem Velho, etc – a versão ocidental fica mais fácil de ensinar. Não precisa forçar a imaginação, você olha e enxerga. Por que? Porque os índios não apenas juntam as estrelas brilhantes, mas formam as figuras com as manchas claras e escuras da Via Láctea. Assim, eles veem mesmo determinado animal no céu. Como aquela brincadeira que se faz com as crianças de enxergar desenhos nas nuvens.
Os dois concludentes esclarecem que “o pensamento guarani não é estático, nem imutável. As constelações sazonais oferecem uma enorme diversidade de interpretação. Para acessar essa cosmologia é preciso considerar a localização física e geográfica de cada grupo indígena, com os que habitam o litoral e o interior ou diferentes latitudes“.
Outras defesas de TCC ocorrerão até final de fevereiro. As monografias estão comprovando que os índios são capazes de se apropriar dos métodos da academia para produzir conhecimento, mas sobretudo que eles trazem relevante contribuição para que a universidade aprenda como pensam os índios. Ronaldo, que antes se formou como técnico em agropecuária no Colégio Agrícola de Araquari (SC), diz que ele tem hoje a visão de dois mundos e pode transitar por ambos: “Dessa forma está sendo plantada uma semente onde vamos poder colher bons frutos”.
Ah, ia me esquecendo. Por falar em bons frutos, entre uma defesa de manhã e a outra de tarde, os integrantes da banca almoçaram os anexos da monografia: milho, melancia, cará, batata doce. Estavam deliciosos. Nota dez.
P.S.1 As bancas examinadoras foram compostas por Helena Alpini (orientadora), Maria Dorothea Post Darella, Aldo Litaiff e este locutor que vos fala, todos professores do curso. Mas de outra espécie de “banca informal, fizeram parte os sábios guarani Alcindo Moreira, Rosa Mariani Cavalheiro e Nadir Amorim, que aprovaram o trabalho dos três alunos.
P.S. 2 – A UFSC apresentou em 2009 proposta do Curso de Licenciatura ao PROLIND – um programa de apoio à formação superior de professores que atuam em escolas indígenas. Agora, negocia com o MEC para que a Licenciatura Intercultural Indígena se transforme num curso regular a partir de agosto de 2015. A equipe esteve formada, entre outros professores, por Maria Dorothea Post Darella, Ana Lúcia Notzold, Clóvis Brighenti, Lucas Bueno – coordenador geral e Rivelino Barreto Tukano, coordenador pedagógico.
“Mas esse feito é uma grande bênção!
Parabéns aos nossos iluminados pesquisadores guarani, na luta pela preservação e divulgação de nossos saberes ancestrais!!
Um orgulho enorme para as famílias deles e para tod@s nós!Lembro de como meus antepassados ficam observando o céu  durante a noite para saber como seria o dia seguinte.E também observavam o céu durante o dia.
Parabéns,Prof.José Bessa por tão importante artigo que em sí, já é um rico documento para esta e as futuras gerações!
Gratidão,”disse a mestra artesã e tuxáua,Marly Cuesta.

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CulturaViva-logoVinicius Lisboa – Repórter da Agência Brasil Edição: Stênio Ribeiro

A Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (Minc) deve publicar, até o fim deste mês, a primeira instrução normativa para regulamentar a Lei Cultura Viva, que trata da política da Rede Nacional de Pontos de Cultura, implementada no ano passado. A instrução terá o objetivo de simplificar a prestação de contas dos pontos de cultura e adotar a autodeclaração para registrá-los no cadastro nacional.

A secretária Ivana Bentes informou que ainda haverá uma última rodada de discussões com o Departamento Jurídico do MinC, com o ministro Juca Ferreira e com a Controladoria-Geral da União (CGU) para que a regulamentação seja simplificada, melhorada, para que se constitua efetivamente em uma ferramenta de desburocratização. “A lei já está em vigor, e a instrução vai trazer esse detalhamento”, disse Ivana, depois de participar de debate sobre a lei, hoje (3), na Nona Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro.

Segundo Ivana, a instrução normativa simplificará a prestação de contas por recursos recebidos e estabelecerá um termo de compromisso, a partir do qual o ponto de cultura financiado comprovará que a atividade cultural foi realizada e atingiu o público pretendido. O principal é reconhecer o mérito das ações do projeto e verificar se ele atingiu o objetivo proposto.

A partir da instrução, será iniciada campanha para cadastramento de novos pontos de cultura. A publicação estabelecerá a autodeclaração como critério para definir o que é um ponto de cultura, permitindo que “quaisquer fazedores culturais” se cadastrem, , disse a secretária. Com isso, a secretaria pretende fazer uma caravana pelo país para estimular o cadastramento e mapear as iniciativas.

A iniciativa será um reconhecimento simbólico, e não vai garantir acesso a recursos públicos. Apesar disso, Ivana defende que o mapeamento faça com que o ministério possa pleitear mais recursos para os pontos de cultura.

O texto da instrução está em discussão. A décima nona versão será elaborada em consenso com gestores estaduais e municipais e com grupos de gestores do Comitê Cultura Viva. Depois da publicação, o ministério vai preparar a proposta de cadastramento, e a expectativa é que o novo mapeamento ao menos dobre o número de pontos cadastrados, hoje em torno de 3,4 mil.

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1517489_759804110767968_5207959451801801816_nPopulações indígenas são populações mais vulneráveis e por isso são necessárias ações localizadas que busquem melhorar a qualidade de vida, a saúde e a educação destas populações. O PNUD, juntamente com seus parceiros, busca caminhos para alcançar os #ODM nas comunidades indígenas, reduzindo assim as desigualdades.
“Nosso esforço por esta grande causa se faz necessário de forma mais propositiva com Políticas Públicas que sejam cumpridas”,disse a Tuxáua Marly Cuesta,titular do GT-Boas Práticas do Movimento pelos ODM no RS!

Conheça mais sobre o trabalho do PNUD na promoção dos #ODM em comunidades tradicionais: http://bit.ly/1zW1lN3

Foto: Paulo Roberto Cortes/CC BY SA 2.

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